na mão, e batia no pai, empurrando-o para trás, na
direção do abismo...
- Tyrion - o aviso de Bronn era baixo e urgente.
Tyrion acordou num piscar de olhos. A fogueira tinha se
reduzido a brasas, e as sombras aproximavam-se de todos os
lados, Bronn apoiara-se no joelho, com a espada em uma mão
e o punhal na outra. Tyrion ergueu a mão: f ica quieto , ela
dizia.
- Venham partilhar da nossa fogueira, a noite está fria - gritou
para as sombras que se aproximavam. - Temo que não
tenhamos vinho para lhes oferecer, mas podem servir-se de
um pouco da nossa cabra.
Todo o movimento parou. Tyrion viu a cintilação do luar
vinda de um metal.
- A montanha é nossa - gritou uma voz das árvores, profunda,
dura e nada amistosa. - A cabra é nossa.
- A cabra é sua - concordou Tyrion. - Quem são?
- Quando se encontrarem com os seus deuses - respondeu uma
voz diferente -, digam que foi Gunthor, filho de Gurn, dos
Corvos de Pedra, quem os enviou até eles - um galho se
quebrou quando ele avançou para a luz; um homem magro
com um capacete provido de chifres, armado com uma longa
faca.
- E Shagga, filho de Dolf - aquela era a primeira voz,
profunda e mortífera. Um pedregulho deslocou-se para a
esquerda, pôs-se de pé e transformou-se num homem. Parecia
maciço, lento e forte, todo vestido de peles, com uma clava na
mão direita e um machado na esquerda. Bateu as armas uma
contra a outra ao se aproximar.
Outras vozes gritaram outros nomes, Cronn, Torrek, Jaggot e
mais, que Tyrion esqueceu no instante em que os ouviu; pelo
menos dez. Alguns traziam espadas e facas; outros brandiam
forquilhas, foices e lanças de madeira. Esperou até que
tivessem terminado de gritar seus nomes antes de lhes dar
resposta.
- Sou Tyrion, filho de Tywin, do Clã Lannister, os Leões do
Rochedo. De bom grado lhes pagaremos pela cabra que
comemos.
- Que tem você para nos dar, Tyrion, filho de Tywin? -
perguntou aquele que chamara a si próprio Gunthor, que
parecia ser o chefe do bando.
- Há prata na minha bolsa - disse-lhes Tyrion. - Esta cota de
malha que uso está grande para mim, mas deve servir bem a
Conn, e o machado de batalha que transporto se adequará à
poderosa mão de Shagga muito melhor que o machado de
cortar lenha que ele tem.
- O meio homem quer nos pagar com as nossas próprias
moedas - disse Cronn.
- Cronn fala a verdade - disse Gunthor. - Sua prata é nossa.
Seus cavalos são nossos. Sua cota de malha, seu machado de
batalha e a faca que tem no cinto também são nossos, Não
têm nada para nos dar exceto suas vidas, Como quer morrer,
Tyrion, filho de Tywin?
- Na minha cama, com a barriga cheia de vinho e meu
membro na boca de uma donzela, aos oitenta anos de idade —
respondeu.
O grandalhão, Shagga, foi o primeiro a rir e o que riu mais
alto. Os outros pareceram menos divertidos.
- Cronn, trate dos cavalos - ordenou Gunthor. - Matem o
outro e capturem o meio homem. Ele poderá ordenhar as
cabras e divertir as mães.
Bronn pôs-se em pé de um salto.
- Quem morre primeiro?
- Não! - disse Tyrion em tom penetrante. - Gunthor, filho de
Gurn, escute-me. Minha Casa é rica e poderosa. Se os Corvos
de Pedra nos levarem em segurança através destas
montanhas, o senhor meu pai vos encherá de ouro.
- O ouro de um senhor das Terras Baixas é tão inútil como as
promessas de um meio homem - Gunthor respondeu.
- Até posso ser meio homem - disse Tyrion -, mas tenho a
coragem de enfrentar os meus inimigos, O que fazem os
Corvos de Pedra enquanto os cavaleiros do Vale passam por
eles, além de se esconderem atrás das rochas e tremerem de
medo?
Shagga soltou um rugido de raiva e atirou a clava contra o
machado, Jaggot cutucou o rosto de Tyrion com a ponta
endurecida pelo fogo de uma longa lança de madeira. O anão
fez o possível para não vacilar.
- Essas são as melhores armas que conseguem roubar? - disse.
- Talvez sirvam para matar ovelhas... se as ovelhas não
lutarem. Os ferreiros do meu pai cagam melhor aço que esse.
- Homenzinho - rugiu Shagga -, continuará caçoando do meu
machado depois de lhe cortar o membro viril e dá-lo de comer
às cabras?
Mas Gunthor ergueu a mão.
- Não. Quero ouvir suas palavras. As mães passam fome, e o
aço enche mais bocas que o ouro. O que nos daria em troca de
suas vidas, Tyrion, filho de Tywin? Espadas? Lanças? Cotas
de malha?
- Tudo isso, e mais, Gunthor, filho de Gurn - respondeu
Tyrion Lannister, sorrindo. - Eu lhe darei o Vale de Arryn.

Eddard

Entrando pelas altas e estreitas janelas da cavernosa sala do
trono da Fortaleza Vermelha, a luz do pôr do sol derramava-
se pelo chão, depositando listras vermelhas escuras nas
paredes onde as cabeças dos dragões tinham estado
penduradas antes. Agora, a pedra encontrava-se coberta por
tapeçarias que mostravam vívidas cenas de caça, cheias de
azuis, verdes e marrons, mas, mesmo assim, parecia a Ned
Stark que a única cor existente no salão era o vermelho do
sangue.
Estava sentado bem alto, no imenso e antigo cadeirão de
Aegon, o Conquistador, uma monstruosidade trabalhada em
ferro, toda ela hastes, arestas i